Beber gelado faz mal?

28/07/2009 às 01:54 | Publicado em Couvert | 2 Comentários

copo_geloA pergunta parece tola, ou será que óbvia demais?

Eu diria que ela é apenas mais uma pergunta, dentre tantas outras que podem ser feitas. Ao qualificá-la, apressadamente, corremos o risco de perder a oportunidade de ver algo novo, de enxergar outras possibilidades de interpretação de uma realidade.

Aquela pergunta se assemelha a esta outra: O que pode ser mais ameaçador à integridade física de uma criança: uma piscina, ou uma arma de fogo na casa em que ela vive?

Se você respondeu que é uma arma de fogo, errou. Provavelmente a sua resposta tem a ver com a influência do que se veicula na mídia a toda hora, entretanto, a realidade é bem outra. Veja o que Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, dizem em seu livro Freakonomics. (Editora Campus, Rio de Janeiro:2005):

“Todos os anos há um afogamento infantil para cada 11 mil piscinas residenciais nos EUA (num país com 6 milhões de piscinas, isso representa, aproximadamente, 550 crianças de menos de 10 anos afogadas anualmente). Enquanto isso, a possibilidade de morte infantil por arma de fogo é de uma para cada 1 milhão de armas (num país com um número estimado de 200 milhões de armas, isso significa que 175 mortes de crianças são causadas anualmente por armas de fogo). A probabilidade de morte por afogamento em uma piscina (1 em 11 mil) contra morte por arma de fogo (1 em 1 milhão) nem sequer é digna de comparação: uma criança  tem aproximadamente 100 vezes mais possibilidade de morrer afogada numa casa com piscina do que brincando numa casa com uma arma de fogo pertencente aos pais.”

         Por detrás do chamado “consenso geral” podem estar outras verdades, ainda, ocultas. As perguntas, mesmo que pareçam absurdas ou chatas, têm o poder de revelar coisas.

À pergunta inicial deste artigo, pode-se acrescentar uma séria de outras afirmações, consagradas na cultura popular. Certamente, alguma vez, durante a nossa infância, ouvimos nossas mães ou avós, fazerem tais observações:

  • “Cuidado com a friagem, meu filho!”
  • “Não beba gelado, filhinho!”
  • “Não apanhe sereno!”
  • “Sorvete no inverno faz mal!”
  • “Não sai nesse frio, vai pegar um resfriado!”
  • “Agasalhe essa criança, ela pode ficar gripada”
  • “Feche a janela; olhe esse vento nas costas”
  • “Não ponha o pé descalço no chão frio? Vá já calçar o chinelo!”

Questionamentos, assim como o da pergunta que dá nome a este artigo são fundamentais para o progresso da ciência. Muito do que pensamos ou pensávamos ser verdadeiro, não passa ou passou de uma ignorância momentânea. O conhecimento acumulado até certo momento, muita vez, é insuficiente para esclarecer um determinado fenômeno da natureza. São perguntas desse tipo, feitas por gente que ousa questionar e permite considerar outras possibilidades, outras maneiras de ver a realidade, que vão permitir o progresso.

Em medicina é prudente considerar como “provisórias” as nossas convicções atuais. Com o vivenciar dos anos na profissão, acabamos sendo testemunhas oculares, de quantas condutas inadequadas já utilizamos. Um singelo exemplo: no início de minha carreira era consenso dizer para as mães que deitar de bruços (posição prona) era o mais adequado para evitar o Refluxo Gastroesofágico (RGE). Essa medida acarretou um enorme aumento nos casos de morte súbita em lactentes. Depois disso, a posição recomendada foi a de decúbito dorsal com elevação entre 30º e 40º. Verificou-se que não era efetiva, além de desconfortável. Depois, baseada na anatomia gástrica recomendou-se a posição do decúbito lateral direito, que tenderia a facilitar o escoamento do conteúdo gástrico para o duodeno. Considerando-se o aspecto anatômico, parecia uma medida óbvia e lógica. No entanto, essa posição não melhorava o refluxo e até mesmo poderia piorá-lo, uma vez que acabava retificando a posição do cárdia, facilitando o refluxo durante a volta da onda peristáltica do estômago. Hoje, em dia, recomenda-se a posição lateral esquerda, que apesar de parecer diminuir o volume do estômago ao se comprimir a região do antro, acaba sendo efetiva por diminuir a angulação entre o esôfago e o estômago (ângulo de Hiss).

Os estudo de meta-análise são interessantes instrumentos desmistificadores de alguns conhecimentos.

Afinal, beber gelado faz mal?

Vários trabalhos, a partir de 1950 foram feitos e nenhum deles comprovou que esse fator, ou a exposição às intempéries, aumentasse a incidência de infecções respiratórias. O que ocorre é que pacientes alérgicos às variações de clima respondem, sim, desfavoravelmente e apresentam sintomas respiratórios que podem se assemelhar a quadros gripais. Daí a confusão popular. Um outro argumento simplista: se friagem fizesse mal não haveria sobreviventes na região da Groelândia e países escandinavos.

 Será que estas conclusões da “ciência oficial”, ocidental, são verdades inquestionáveis e absolutas? Se abrirmos o “leque” da nossa mente e, por exemplo, admitirmos a medicina chinesa como possibilidade, veremos que o beber gelado não é tão inócuo assim. Nessa maneira de entender a realidade e interpretá-la, quando a “energia do rim” está alterada, não é conveniente tomar nada gelado, mesmo no verão.

Afinal, “eu estou com sede, posso ou não beber gelado?”

Beber ou não beber, eis a questão!

Na verdade, o propósito deste artigo não é responder esta pergunta. Quero provocá-lo a fazer outras perguntas para que fiquem à espera de respostas…é claro, provisórias!

About these ads

2 Comentários »

Feed RSS para comentários sobre este post. TrackBack URI

  1. Fiz uma meta-análise, cheguei a conclusão que não vou deixar de beber minha coca-cola bem gelada! Ou não?
    Parabéns pelo blog!
    Beijo

    Mauricinho

  2. Efetivamente, a exposição ao frio não tem implicância nenhuma na aquisição de infecções de vias aéreas. Porém, a famosa “friagem” é sim uma vilã, principalmente ao considerarmos a pediatria, por duas razões:

    – O choque térmico causa uma reação imune (mediada pelas chamadas TSP, “Thermal-shock proteins”) que inibe a migração de Imunoglobulina-A (IgA), para as mucosas do corpo, o que constitui a primeira linha de defesa contra micróbios respiratórios.

    – Como citado acima, “pacientes alérgicos às variações de clima respondem, sim, desfavoravelmente e apresentam sintomas respiratórios“, sintomas esses como obstrução nasal e coriza, que podem obliterar a via de drenagem dos seios paranasais ou tornar a mucosa, agora hiperêmica, edemaciada e secretiva, mais propícia a proliferação bacteriana.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com. | O tema Pool.
Entries e comentários feeds.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: